Home Opiniões Relacionamento & Cotidiano Estranhos

Estranhos

Não. Definitivamente não é ético falar sobre casos clínicos. É por isso que vou apenas divagar sobre os devaneios de uma amiga, aqui denominada Norah.

“Em uma festa, além dos habituais figurantes, existem dois importantes estranhos, sendo um deles a Norah. Estão naquela cidade a passeio, e na verdade, não pertencem a nada. Eles se olham, se conhecem e, porque assim designa o desejo, dormem juntos. Com relação ao tempo, conte-se, tratam-se apenas de uma madrugada e uma manhã. Nada mais. Os caminhos dos estranhos são diferentes, e no dia seguinte, ele, carinhosamente, parte. Não deixa nenhum rastro além de seu primeiro nome, mas isso é informação suficiente para que Norah consiga um meio de contatá-lo.

Passados os flagelos por ter iniciado a conversa, se dão as torturas sobre o tardar da resposta. Até este ponto não há surpresa, assiste-se a um típico caso de ansiedade. No entanto, Norah consegue listar razões que justifiquem o absentismo do estranho. Dentre todas, uma lhe parece mais óbvia. Ao que parece, aquele estranho, envolto de sua sedução, ensinara-lhe na manhã em que estiveram juntos, uma espécie de teoria do monopólio, que alude a importância de Norah não ser objeto usufruto de outros homens . Se naquelas terras a ele havia se entregado, o aconselhável seria que assim o fosse até o fim da temporada que ali estivessem. [Diagnostique-se aqui uma síndrome de estupidez crônica].

O fato perturbador dessa história é que Norah não se opõe à ideia. Não se ofende. Não grita. Não protesta. Norah assente. E, uma vez tendo flertado com outrem nos demais dias que seguiram (sem qualquer intimidade, diga-se de passagem), Norah vê a razão para o desprezo do estranho. Ela nem sabe se o estranho tomou conhecimento de sua troca de olhares. Mas, o que fazer se envolveu-se numa vigilância inexistente depois daquela recomendação matutina. E não é aqui que se dá a patologia, mas sim, quando se permitiu ser o objeto das demências de um estranho.”

Como num surto de confissão, tomei conhecimento desta história. O que me intriga não é a ausência de despedida do estranho no primeiro momento e nem mesmo a solicitação gentil de exclusividade. O ponto que realmente incita minha crise é a subordinação à ideia. Norah dedicou-se durante dias a duas coisas: contatar o estranho e ser alguém exemplar aos seus olhos. Para os mais românticos que veem na paixão a justificativa de insanidades, sinto muito, vamos aos fatos: Norah não está apaixonada. Ela apenas aprisionou-se pelo medo de uma classificação de conduta libertina por agir de maneira contrária às alusões do estranho.

Isento-me de julgar as várias formas e meios de se relacionar com pessoas diferentes num curto espaço de tempo. Não se sabe se Norah deve vislumbrar outros romances ou não. O eixo principal deste discurso é a defesa da não abdicação de um direito à escolha, já estabelecido. Afinal, é impossível saber por que está na pauta de uma manhã de carícias o seu horizonte de parceiros. Falamos aqui de alguém que naquele momento existia há exatas 10 horas na vida de Norah. E para dimensionar a falta de importância, deixo claro que esta já passa das 350 mil horas vividas. Sim, este estranho não chega perto de ter participado de 1% da vida de Norah e, no entanto, se impõe como um pequeno ditador.

O meio em que vivemos está doutrinado, via de regra, a apartar mulheres entre freiras e meretrizes. E apesar de não acreditar em rótulos, creio que existam muitos mais modelos de vida entre esses dois extremos. Sem preocupações, a sua própria essência responderá a isso naturalmente, tendendo para alguma das pontas ou delirando num constante movimento oscilatório entre elas. O caso de Norah me faz refletir justamente sobre os entraves que se opõem às nossas genuínas expressões de liberdade sexual. Quantos estranhos ainda se confortam em nossas camas e por divertidos 20 minutos decidem se apossar da nossa capacidade de decisão? Ou, muitas vezes, simplesmente anulá-las?

Brindo a todos os estranhos! Aos que já passaram e aos que estão por vir. O que se faz necessário, de fato, é que deixemos bem claro o que pode ser pauta entre nós: a diversão mútua e a amizade irrestrita. Sem mandamentos de moralidade. Sem subordinações.

A história que aqui retrato não é do século passado. Estamos a menos de sessenta dias do ocorrido. Saibam então, que ainda nos resta reforçar a linha que separa as nossas escolhas individuais de qualquer outro tipo de relacionamento, para que além das nossas diferenças (ou semelhanças) de corpos, nossas almas se respeitem como iguais.

(Visited 109 times, 1 visits today)

Comentários do Facebook


3 COMENTÁRIOS

  1. Minha cara Glória,
    UAU! Que densidade! Mas, por favor, esclareça-me uma questão: por que a Norah não poderia ter se apaixonado pelo estranho naquela noite? Você não menosprezou o poder de uma química poderosíssima e/ou de um sexo inesquecível (talvez um dos melhores no histórico de relacionamentos da Norah)?

  2. Olá Rebecca, muito obrigada pelas colocações.
    O ponto aqui é tratar da pseudomoral ao entorno de Norah.
    Anular um possível poder de reação justificado pela presença de fatores passionais
    remonta qualquer indivíduo a um papel passivo sobre suas próprias convicções.
    Os resquícios de uma noite e a subjetividade que ela encerra ficam a cargo do leitor.
    Quanto a mim, limitei-me aos fatos.

    Abraço GF

  3. Glória, você é genial! Qualquer dia vou ao seu consultório e peço pra agendar uma consulta…

Deixe seu comentário

Aviso: Os comentários são de responsabilidade de seus autores e não representam a opinião do Solteirar.com. É vedada a inserção de comentários que violem a lei, a moral e os bons costumes ou violem direitos de terceiros. O Solteirar.com poderá retirar, sem prévia notificação, comentários postados que não respeitem os critérios impostos neste aviso ou que estejam fora do tema proposto.

Cadastre-se e não perca nada do Solteirar.com!
Receba nossa newsletter.




ARTIGOS SIMILARES

0 181